Dentro do contexto de tecnologia é normal algo não funcionar como deveria, por isso existem trabalhos contínuos no desenvolvimento de soluções eficientes e eficazes. Bom, digamos que essa era a ideia romântica na teoria. Na realidade uma ideia questionável só precisa ser aceita pela maioria para virar uma “trend”.
Tecnologias inovadoras sempre despertarão o interesse de entusiastas do futuro, sejam eles instruídos ou não, é bem satisfatório acompanhar a nossa evolução digital e ainda por cima poder usufrui-la. Quem diria que o celular seria uma das ferramentas mais importantes da humanidade, um aparelho originalmente fabricado para comunicação é um produto essencial na vida cotidiana. A internet abriu todas as portas da informação e todos nós podemos “absorver e compartilhar conhecimento sem limites”.
Desde muito tempo atrás existe o conceito retrowave e cyberpunk, retratado através de artes, filmes e livros, onde no futuro a nossa vida é 100% de interação com máquinas, telas, botões e robôs, dando um ar de aprimoramento tecnológico e evolução. É como se fossemos destinados a viver em um mundo cada vez mais digital, produtivo e compartilhado. Podemos sanar grande parte de nossas necessidades através de comando de voz e resolver problemas complexos com apenas alguns cliques.
A evolução digital é uma crescente constante, ela continua sem se importar com contextos externos. Existem equipes dentro de departamentos de inovação, encarregadas em desenvolver e implementar soluções revolucionárias. Uma aplicação não deve apenas funcionar, é preciso aprimorá-la, lapidá-la, poli-la, refiná-la, mantê-la em evidência, pois as nossas necessidades são moldadas de acordo com as tecnologias vigentes. É preciso entregar amostras do futuro e praticamente obrigar os usuários a consumi-las.
Todo mundo reconhece que alcançamos um nível de capacidade tecnológica gigantesco e ainda parece que não utilizamos todo o potencial. Então porque será que existem tantas coisas “bugadas”?
Quantas vezes essa semana o seu aparelho digital apresentou algum comportamento estranho? Por exemplo, de repente congelou por alguns segundos, a tela de um app abre de uma forma abrupta, um app se sobrepõe a outro, as suas configurações salvas não carregam, você clica no botão e não acontece nada, as notificações não exibem informações corretas, existem tantas coisinhas triviais que é apenas o comportamento esperado. Até o seu celular top de linha da marca que você mais confia e que nunca havia travado antes travou, mesmo sendo o aparelho mais tecnológico e atual. O site que você costuma visitar parece carregar um elemento sobreposto a outro. O botão flutuante do site está no meio da página, a tela de login de alguma plataforma está tampando o menu, existem alertas para consentimento de algo que parece complexo, mesmo você querendo só ler um parágrafo. Tudo parece que carrega em blocos e alguns blocos nem chegam a mostrar nada, só fica um fundo cinza ou piscante. De uma hora para outra o site fica cheio de coisa na tela que você nem sabe mais o que foi fazer ali. Talvez você até comece a ver um vídeo, já que está rodando mesmo. É tanta coisa voando no seu campo de visão que você mal consegue navegar sem antes ter que fechar algumas coisas e consentir outras.
Mas agora os botões são animados, animações tão elegantes que finalmente podemos dizer que estamos vivendo no futuro. Os apps deslizam como se fossem gelatina, você vê um ícone praticamente criar vida ao interagir com ele, existe uma relação íntima com nossas soluções digitais que emanam emoções na forma de interatividade. Em um deslize de dedo tudo pode acontecer, tudo é tecnologicamente inovador e revolucionário.
Deixando toda a elegância para trás, podemos dizer que o estado atual digital lembra um pouco de como era a internet em meados dos anos 2000. Outdoors e letreiros para todo lado, só que agora os elementos visuais têm vida própria e existem em uma realidade paralela à nossa. Quanto mais chamativo, mais chances de conversão. Se você notar bem vai perceber que praticamente todos os elementos flutuantes interativos são relacionados a alguma estratégia de conversão. Uma simples tela de login serve para vincular seus dados, um botão da IA também coleta seus dados, tudo que não está inserido diretamente na página e parece ajudar em sua navegação (até ajuda na verdade) foi projetado para outros fins muito mais complexos, são exibidos apenas as pontas de icebergs coloridos e animados.
Os monitores estão maiores mas a quantidade de informação útil na tela diminuiu, a internet ficou mais rápida, mas o tempo de carregamento das páginas parece o mesmo de antigamente, são tantos apetrechos que precisam carregar para fazer tudo funcionar, que para quem só está ali navegando nem nota que estamos com uma velocidade 1000% mais rápida. Não são só animações e luzes que frequentam a fila no carregamento diário cotidiano, dentro de cada aplicativo, de cada site, de cada ferramenta, existem inúmeros programas rastreadores para colher informações relevantes. Um programa quer saber de onde você veio e o que você está fazendo, o outro quer saber o que o anterior colheu, o próximo vincula o seu usuário a alguma campanha de marketing, essa campanha rastreia tudo que pode para tentar atribuir a sua visita a ela mesma, a plataforma que você está logado entra na jogada para disputar essa visita, é uma loucura e não para por aí, mas vamos deixar esse assunto para outra publicação.
Devido a alta complexidade nas milhares linhas de códigos e integrações, hoje em dia muitas aplicações já vem bugadas de fábrica , é mais fácil tratar tudo silenciosamente ou fingir que ninguém viu nada. É tudo tão rápido e a capacidade tecnológica das plataformas é tão alta que vale a pena encher linguiça injetando elementos complexos e bugados, o usuário nem ficará sabendo, no máximo é apenas aquela resposta de "acontece as vezes". Talvez um ou outro bug pode comprometer a segurança do usuário ou da plataforma, mas quem se importa?
E se eu disser que na maioria das vezes esses "comportamentos estranhos" são por conta de recursos publicitários injetados no meio do caminho, algo relacionado a rastreamento ou monetização, atribuições de marketing. Pensa que é fácil definir o número de quantas propagandas você vai ter que ver durante sua visita para gerar o retorno desejado? Imagine o trabalho do coitado do programa, que precisa verificar se você tem informações relevantes vinculadas a sua visita para poder gastar os recursos dos anunciantes mais apropriados, tudo isso enquanto apresenta artes visuais futurísticas e carrega milhões de outras coisas.
Consentimos com tudo isso! Abrimos mão de toda a performance e tecnologia avançada em troca de elegância futurística, mesmo que sejam peças publicitárias, se são descoladas está valendo! Não podemos reclamar muito né, afinal "é de graça"! "Doamos" nossas informações por conveniência com nossos hábitos, para poder ver apenas o que queremos e eliminar o que não gostamos. Aceitamos os bugs numa boa, pelo menos agora deixamos nossas fotos mais bonitas, e nossas caras também.
Somos viciados nesse modelo digital, essa é a nossa realidade e precisamos nos desenvolver dentro dela, isso nos faz sentir agregados a sociedade. Compartilhamos nossa felicidade com as novas atualizações das aplicações e sentimos como se fossemos responsáveis por elas. Pode parecer meio conspiratório, mas se tudo isso for uma ideia de pessoas poderosas com dinheiro, eles acertaram em cheio. Viciados aceitam pagar qualquer preço.
Há uma necessidade constante em aumentar a capacidade no processamento de dados e consequentemente projetar hardwares mais eficientes. Poderíamos ter ferramentas objetivas, rápidas e de certa forma, elegantes, mas nada disso seria tão revolucionário quanto dar vida a elementos inanimados e poder viver em mundos digitais paralelos e segmentados a sua maneira. O mundo digital atual tem os seus problemas, mas é elegante.